Vítima falou, em condição de anonimato, que aplicou R$ 100 mil e recebeu de volta R$ 20 mil há um ano. A reportagem ouviu mais pessoas
AÇÕES, COMMODITIES E MOEDAS DIGITAIS
03/10/2025 – A Delegacia de Polícia Civil de Belo Horizonte, que investiga crimes de estelionato, foi acionada para apurar denúncias sobre possível pirâmide financeira em São Gonçalo do Rio Abaixo, com indícios de um prejuízo de aproximadamente R$ 15 milhões nos últimos meses. O valor poder ser ainda maior, já que o denunciado, ex-morador da cidade, informava aos clientes que operava há noves anos.
Pelas informações, dadas com exclusividade ao Folha Popular, o acusado teria captado valores prometendo rendimentos que chegariam de 3% a 5% com pagamentos todas as sextas-feiras, ou até 20% mensais, por meio de aplicações no mercado de ações, commodities e moedas digitais.
“Estou com uns investimentos bons para você aí oh, lucrim top, pagamento toda sexta-feira, tô mexendo só com isso, você sabe, já tem nove anos. Se quiser, você me fala aí”, informava o denunciado por meio de mensagem por aplicativo.
Além de São Gonçalo, há relatos de dezenas de pessoas de todas as classes sociais de João Monlevade, Belo Horizonte, Barão de Cocais, Bom Jesus do Amparo e Itabira, que acreditaram na promessa de rendimento financeiro elevado, a maioria delas, estimuladas por pessoas do convívio familiar do operador, com a informação de que o ganho era real.

Região central de São Gonçalo. Várias vítimas falaram com a reportagem
Além da mensagem por aplicativo, conforme relatos das vítimas, o trader, como é chamada a pessoa que atua no mercado financeiro comprando e vendendo ativos (como ações, commodities e moedas digitais) com o objetivo de lucrar com as flutuações de preço em prazos curtos ou curtíssimos, mostrava pelo celular que operava no mercado com aplicações pela Forex, plataforma estrangeira de moeda digital, descentralizado, sendo a maior do mundo e também a mais agressiva, tanto para ganhos como para perdas. Para outros, ele informava que fazia minerações em criptomoedas e ainda que era proprietário de uma mina física de esmeraldas. As informações ganharam credibilidade em São Gonçalo devido aos laços de amizade e ao convívio social do acusado com pessoas de alto poder aquisitivo, que também não escaparam da oferta tentadora.
Em meados de 2024, pessoas que repassaram valores para o acusado começaram a não receber os devidos rendimentos, com o trader informando que tinha perdido milhões em uma transação e que teria, devido a isso, registrado um boletim de ocorrência, e para outros, que o dinheiro estava bloqueado em uma plataforma internacional, e que estava gerando rendimentos e que os valores seriam repassados, o que não aconteceu até o momento.
DEPOIMENTOS
- “Ele contava essas histórias e as pessoas as replicavam, não sei se era tudo planejado, se essas pessoas falavam dos ganhos para ampliar a rede de investidores e garantir os juros ou se era mesmo uma pirâmide, onde apenas as primeiras pessoas, normalmente familiares e pessoas mais próximas, recebiam o que era proposto. Acredito também que o dinheiro nunca saiu de São Gonçalo e que ele pegava de um para pagar outro, e assim, crescer a pirâmide”, informou uma das vítimas que pediu anonimato.
- “Tem gente que pegou dinheiro da venda de imóvel e passou para o especulador. Muitos estão tomando remédio controlado para dormir”, informou uma vítima.
- “Ele apresentava uma plataforma no celular, fazia uma pequena operação, mas como a gente não conhece, acabava acreditando”, disse outra.
- “Ele já está com vários processos e a família já está sendo acionada pela Polícia Civil para depoimentos. Eu registrei o fato na delegacia especializada em crimes de estelionato em Belo Horizonte”, contou outra vítima.
- “Apliquei R$ 80 mil. No primeiro mês recebi R$ 20 mil. Depois disso, não recebi mais um centavo. Acho que tudo era planejado. Ele pegava o dinheiro e devolvia uma parte como ganho para estimular a pessoa a colocar mais dinheiro”, disse outra vítima.
- “Tem gente de São Paulo que passou dinheiro para ele, e não foi pouco”, disse mais um.
- “Ele é muito corajoso, pois segue operando normalmente, inclusive oferendo mais oportunidades de ganhos para quem ele já deve”.
- “Opa, aquele dinheiro que tá lá, tá resolvendo, assim que liberar, você recebe, mas aqui, você não quer colocar mais um pouco, pois vou fazer uma aplicação no nome de um amigo, se você topar, vou te dar um juros bacana”, diz o operador para mais uma vítima.
- “Só em valores repassados, de capital, chega a meio milhão. Se colocar os juros, ele me deve mais de um milhão de reais”, contou um morador de Belo Horizonte.
Em busca de mais informações com o suspeito, a reportagem enviou mensagem e ligou para o número de telefone com final 86, que seria do acusado, mas ele não respondeu e não atendeu.
Com os registros policiais, a esperança é de que, após a quebra dos sigilos telefônicos e bancários do possível estelionatário, a Justiça consiga bloquear valores não só do acusado, mas de pessoas próximas que validavam a prática possivelmente criminosa.
O alerta também é para que as pessoas que passaram valores para o acusado, acionem a Polícia Civil em São Gonçalo, Santa Bárbara ou mesmo em Itabira, independentemente do valor.
Outro alerta é de que o acusado, mesmo fora, estaria seguindo captando valores e prometendo ganhos extraordinários por meio de aplicações no mercado financeiro digital.
Matéria exclusiva publicada na edição de quinta-feira (2) do impresso FOLHA POPULAR









