Juraci; como resolver um problema que não é seu?
Conceição do Mato Dentro foi um dos 10 municípios selecionados para concorrer à premiação por conseguir melhor engajamento com a comunidade escolar
Por Vinícius Leonel
31/08/2025 – Juraci, aluno do ensino fundamental da Escola Municipal Amador Aguiar de Itacolomi, foi questionado: como ele poderia resolver um problema que não era dele? Sua resposta foi direta: encontre uma solução que seja coletiva. E foi nesse espírito que os alunos e ex-alunos auditores mirins da escola municipal de Conceição do Mato Dentro, participaram de toda a jornada proposta pelo programa Estudantes em Movimento.
“Para resolver um problema que não é meu, precisamos encontrar uma solução de modo coletivo” — Juraci, 12 anos
O projeto, criado e fomentado pelo Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci) em parceria com a Unesco, busca levar o conhecimento de gestão pública aos alunos do ensino fundamental e aproximar os atores que impactam diretamente nas decisões da escola: professores, diretores, secretário de Educação e demais autoridades.

Momento em que o prefeito Otacílio Costa entrega o certificado ao Juraci
O Município, inscrito no edital do Conaci, foi um dos 10 selecionados para concorrer à premiação final que regularmente o esforço de toda a equipe envolvida na formação desta jornada, e que conseguiu melhor engajamento com a comunidade escolar.
“O aprendizado mais relevante do projeto é que os estudantes passaram a ter a percepção do poder de realização” — Jéssica Maciel, controladora
As atividades – orquestradas pelo departamento de Controladoria do município, através da doutora Jéssica Maciel e a ouvidora Larissa Simões – trouxeram a metodologia proposta pelo próprio Conaci, somando inovação nas atividades seguindo as regras do concurso de modo lúdico, desenvolveram a identidade visual da mascote Luna, exploraram o movimento e a consciência corporal com oficinas de teatro e envolveram a agricultura familiar. A equipe optou por aplicá-las justamente num colégio municipal da zona rural no distrito de Itacolomi, entre maio e agosto deste ano.
Confira abaixo o resumo da metodologia neste vídeo
Neste vídeo a equipe apresenta os resultados de toda a jornada e usa a Luna, a mascote do projeto, como elemento o lúdico para envolver essa galerinha
Para passar diversos conhecimentos técnicos, as tarefas devem seguir um acordo: ser leve, divertido e envolvente. Para isso, a equipe promoveu uma jornada apresentando todos os objetivos e metas do projeto ao corpo docente e aos alunos, a fim de captar os participantes que realmente gostariam de fazer parte do projeto. Para a surpresa da equipe, oito professores, o diretor da escola e 73 alunos levantaram as mãos.
80% da escola decidiu abraçar esta causa
Para filtrar auditores e trabalhar o quesito de liderança, os alunos foram convidados a uma eleição interna afim de formar e candidatas, e eleger aqueles que seriam os representantes da turma, os chamados “Auditores Mirins”. Os alunos então iniciaram uma jornada tomando a decisão de seus representantes, fizeram campanhas para eleição e construíram urnas próprias com materiais reciclados, usados na votação. E para marcar o movimento estudantil, realizador do “Grito de Garra” , Estudantes em Movimento, foi produzido um videoclipe, abaixo.
A produção do videoclipe levou as crianças para diversos pontos turísticos: o santuário Bom Jesus do Matosinhos, o mirante da Cachoeira do Tabuleiro, a igreja Matriz, e claro a própria sede da Prefeitura , onde tiveram a oportunidade de estar ao lado das autoridades
Todo este percurso de conhecimento realizado numa boa escolha de seus auditores mirins e uma noção objetiva de quais metas o grupo deveria alcançar. Dois representantes eleitos, sendo uma de cada turma, orientada pela professora Ana Paula Delpino de Lima, ficando como auditores responsáveis por repassar o conhecimento ao restante da turma.
Para então definir quais seriam os problemas e soluções propostas, os docentes propuseram um quadro de “Problemas e Soluções”, a ser preenchido com post-its pelos alunos. Durante uma aula de cada período, os alunos discutiram entre eles quais problemas eles enxergavam no dia a dia da escola, e quais soluções eles encontraram viáveis de serem melhoradas através deles mesmos.

Os alunos perceberam que uma merenda escolar poderia ter mais diversidade e trazer elementos que já eram de costume local , como: ervas medicinais e hortaliças. Além disso, os alunos também perceberam que a unidade continha diversas áreas verdes ociosas e que poderiam ser aproveitadas para o plantio de uma horta comunitária e o paisagismo trazendo uma sensação maior de bem estar e contribuindo diretamente na diversificação do cardápio com suas próprias mãos.
A tarefa não parou com este diagnóstico. Os auditores mirins foram solicitados, e deveriam ler uma carta ao prefeito, vice, vereadores, secretário e demais autoridades presentes numa atividade extra a qual a equipe enviada — a audiência pública na quadra da escola e a entrega dos certificados aos auditores mirins.
Além da alegria em entregar o certificado aos alunos, as autoridades ficaram surpresas com a grande autonomia que o movimento tinha adquirido. Ao ouvir a carta elaborada pelos alunos, o nutricionista André, responsável da merenda escolar de todo o município, foi acionado.

(esq. p/ dir.), Beatriz, uma das alunas eleitas, Eduardo Pimenta (secretário de educação), Jéssica Maciel (Controladora), o prefeito Otacílio Costa, o vice-prefeito Joaquim Costa, Marco (presidente da OAB de Conceição do Mato Dentro), Henrique Floriano (vereador)

Aluno faz a leitura da carta escrita coletivamente exigindo autoridades para trazer ao cardápio, uma merenda mais diversa e relacionada aos costumes locais
André, o nutricionista, teve então um momento de troca bastante aprofundado com os alunos: apresentou as restrições que deveriam seguir, as limitações em relação a compras e equipe, e as soluções cabíveis. E foi assim que os alunos chegaram a um ponto em comum nesta demanda: montaram um cardápio possível e dentro das normas ordinárias. E com muita proatividade resolveram colocar a mão na massa e trazer para o conhecimento da escola, plantas e hortaliças que eram da cultura local.

Equipe de nutrição do município orientando os alunos e desenvolve o cardápio coletivo
Chegara o momento do desafio final. Os alunos, junto com professores e comunidade devem buscar recursos para atingir seus objetivos específicos: montar a horta comunitária dentro da escola e refazer o paisagismo nas áreas verdes. Com diversas mudas arrecadadas se ocuparam de arar a terra, colocar adubo, plantar as mudas e sementes. Em pouco tempo, aquilo que parecia árido, tomou conta de núcleos. Aquela terra que parecia ociosa começou a ser o futuro alimento que serviria a todos naquela escola.

O diretor João Martins e alunos com a mão na massa realizando os plantios da hora comunitária
O Estudantes em Movimento em Conceição do Mato Dentro mostrou que, quando a comunidade escolar se une, o aprendizado vai muito além da sala de aula. A iniciativa, que envolve alunos, professores, gestores e autoridades, promoveu cidadania, senso de coletividade e responsabilidade social, ao mesmo tempo em que gerou resultados concretos, como a horta comunitária e a melhoria da merenda. Esse projeto se consolida como um exemplo de que educar é também formar cidadãos ativos, capazes de identificar problemas, propor soluções e transformar o espaço em que vivem.









